Autor: Sílvio Pessoa
Disse já, e insisto na afirmação, que nós, apenas nós rubro-negros, podemos entender o nosso clube. Sociólogos, juristas, cientistas sociais são impotentes, em sua linguagem, para definir o Sport.
O sociólogo, no seu rigor conceitual, descreveria o Sport como um "grupo social".
O jurista diria que é ele uma "pessoa jurídica de direito privado".
Os seus estatutos apontam-no como uma associação sem fins lucrativos.
Para nós, rubro-negros, contudo, o Sport é mais que isso, muito, muito mais!
Não é só sentido de identidade comum ou semelhança de interesses, como pretende a Sociologia. Nem é só entidade personalizada, constituída por ato jurídico plurilateral, como ensinam os civilistas sem nos conhecer.
Para os estranhos, desmentindo a lenda grega de milênios, o Sport é esfinge que se não decifra. Que é, então, o Sport Club do Recife?
O triunfalismo material de muitos de nós responderá que é o amálgama de concreto e ferro. A transparência dos vidros. A grandiosidade dos espaços. A cristalinidade de suas águas. A verticalidade de suas colunas. O verde de seu tablado. A harmonia arquitetônica de suas linhas. É insuficiente, no entanto, para defini-lo.
Sentimento e História, aí sim, falam melhor e com maior fidelidade a seu respeito.
O Sport é um frondoso sapotizeiro como pólo, sombra, piso e teto de ideais jovens, de sonhos, de ambições de grandeza futura. É bandeira preto-vermelha indicativa de convergência criadora. É um Leão-símbolo, magia e realidade. É ilha sem isolamento. É lágrima multirracial e alegria sem cor. É extraordinária convivência sem classes.
Sport querido, és indefinível para os outros!
És consolo para o suor operário. Orgulho para vibração juvenil. Vaidade tranqüila para corações enrugados. És amor possessivo mas partilhado e não ciumento.
O Sport é respeito aos que se mortalharam de preto e vermelho. É confiança nos que continuam. É proposta de imortalidade.
Síntese de classes, braços erguidos, músculos tensos, gritos roucos, lábios secos, olhos vermelhos, explosão de alegria, mãos entrelaçadas, camisas rubro-negras valorosas, suadas, rasgadas, nas quadras, nos campos, nas águas, nas ruas, na sede, tu és tudo isso, Sport!
Na alegria de mais um campeonato, nestes teus setenta e cinco anos gloriosos, perdoa a incapacidade conceitual dos sociólogos, dos juristas, dos cientistas sociais. E, ao final, releva a pobreza de minha linguagem, confusa na riqueza de minha linguagem, confusa na riqueza de emoções que, juntos, homens, mulheres e meninos, partilhamos hoje, aqui e ali, quem sabe onde?!
Crônica publicada na revista do Campeão - edição de novembro de 1980
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