O roteiro: um time de jovens atletas se reúne para disputar a Superliga Feminina de Vôlei, competição mais importante da modalidade. Nenhuma equipe do Nordeste havia participado da Superliga antes. O Sport/Maurício de Nassau nunca teve um time a sua altura na região, e conquistou uma merecida hegemonia nos torneios. Mas era hora de dar um gigantesco passo à frente: encarar a nata do vôlei nacional (o vôlei mais forte do mundo), enfrentando times com alto investimento e jogadoras da Seleção Brasileira.
E o Sport, tão acostumado a vencer, se viu perdendo partidas e mais partidas em sequência. A realidade começou a se tornar dura com as rubro-negras. As críticas vieram, sem ter piedade das meninas que já haviam superado tantos limites e já faziam história só por chegar ao torneio. Mas o esporte de alto rendimento é assim, não existe piedade, não existe análise de contexto. Existem vitórias e derrotas.
Ontem, em mais um jogo pela Superliga, o Sport enfrentou o Brasil/Telecom, segundo melhor time do torneio até então. Time da ponta Érika, da Seleção Brasileira. Não iria ser contra um time deste nível que as leoninas iriam conseguir sua primeira vitória…
Quem disse?
Vamos continuar falando de chances. A expressão “medalha” é utilizada no vôlei para dizer que um defensora foi atingida no peito pela atacante. Em 90% dos casos é bola no chão. É o momento de triunfo, de humilhação, de sobrepuja sobre o adversário. No terceiro set do jogo de ontem, a líbero Flavinha recebeu duas medalhas no mesmo ponto. E contrariando as possibilidades, ela manteve a bola em jogo nas duas vezes e o Sport venceu o ponto. A partir daquele momento ela não errou mais.
As jogadas de Flavinha podem ser comparadas a todo o campeonato da equipe. No torneio, o Sport desabou sempre que levou uma pancada. Naquele momento Flavinha “disse” ao time: A gente pode levar pancada, mas vamos continuar colocando a bola em jogo, sempre.
O que se viu dali em diante foi uma reviravolta digna de filmes hollywodianos. Os jornalistas, a torcida, todos já esperavam por mais uma derrota. Eles não acreditavam no que estavam vendo. Mas as jogadoras começaram a acreditar e de repente os limites se expandiram.
As humilhadas seriam exaltadas. Cada ataque do Leão era um misto de fúria e alegria. A cada bloqueio, o olhares das jogadoras se cruzavam, elas sabiam o que estava acontecendo. De relance, vislumbraram o futuro. A vitória.
Mas havia um último desafio: o tie-break. O Brasil/Telecom voltou a ficar na frente do placar, depois de dois sets correndo atrás do Sport. Matchpoint para as catarinenses. Ninguém vai saber ao certo o que se passou na cabeça das jogadoras. Podem ter sido mil pensamentos diferentes, mas o que prevaleceu foi a “frase” de Flavinha. A bola não ia cair mais.
O Sport conseguiu virar. Para terminar uma amostra de talento e improvisação. O passe veio quebrado e parecia que o Sport apenas passaria a bola para a quadra do adversário, mas a oposto Tita achou um buraco no meio da atordoada defesa do Brasil/Telecom, que sem entender de onde vinha toda aquela mistura de ímpeto e sutileza, assistiu a bola tocar no solo.
A partir dali os profissionais que trabalhavam na partida não eram mais profissionais, eram torcedores. E os torcedores eu não sei mais o que eram.
Não era uma final de campeonato. Mas foi um momento surreal na vida de quem assistia e de quem jogava. As almas das jogadoras se encaixaram e o coração das atletas parecia bater no mesmo ritmo. Os sorrisos carismáticos eram sincronizados, assim como as jogadas de ataque. O jogo perfeito.
Os olhos marejados de uma colega jornalista me deram a certeza de que o que eu senti naquele momento foi compartilhado por todos os presentes. Ainda bem.